Artistas ou Público Geral: pra quem é o e-Teatro?

Quando se trata de e-Teatro, as opiniões são conflitantes. Alguns acreditam que é uma forma legítima de criação artística. Já outros o entendem como uma solução temporária para tapar o buraco deixado pelo Teatro presencial. Dentro disso, vemos que grande parte do público que consome teatro aprova esta nova vertente, enquanto grande parte dos comentários desfavoráveis vem de artistas. Mas por que existe essa divergência?


Com o início da pandemia da COVID-19 e as eventuais adaptações feitas pelas áreas artísticas envolvendo a internet, iniciaram-se as discussões sobre a legitimidade e longevidade do Teatro feito no formato digital. Em maio de 2020, o Conselho de Teatro de Quebec publicou um artigo intitulado "Isso não é Teatro", onde argumentam que sem o encontro ao vivo com o público, sem a efemeridade e sem a possibilidade de falhar naquele momento único, não existe Teatro. Já em agosto, o Estadão publicou uma matéria escrita por Laura Collins-Hughes no The New York Times cujo título era "Teatro on-line não é teatro: é uma maneira de lamentar sua ausência". Mesmo agora, em 2021, vemos que essa oposição continua. Em março de 2021, Castro Guedes escreveu para o site Público o artigo "Não há teatro fora da vida, a vida não é teatro", onde afirma que o teatro online não é teatro.


Ao mesmo tempo, vimos que houve um acolhimento por parte do público que consome Teatro. Em junho de 2020, a Folha publicou a matéria "Teatro feito pela internet agrada público, mas gera críticas de atores". Já em outubro, uma pesquisa realizada pelo Itaú Cultural e pelo Datafolha revelou que 67% dos entrevistados acreditam que a pandemia democratizou o acesso à cultura na internet. Muitos grupos e atores independentes tem relatado recepção positiva e números bons de público em suas apresentações, muitas vezes até números maiores que nas apresentações presenciais. Além disso, artistas que tem investido na criação online afirmam que a experiencia é muito parecida com a do teatro presencial. Ainda existe a relação com o público e sua presença, ainda existe a adrenalina, a efemeridade daquele momento em que se apresenta o espetáculo e ainda existe a possibilidade de erro, já que podem ocorrer problemas com a conexão, por exemplo. Mas então, porque essa relutância de alguns artistas em aceitar o e-Teatro como uma forma de criação teatral autêntica?


É possível que o receio de muitos seja a substituição da interação presencial pelo Teatro na internet. Esse argumento, porém, não se sustenta. O surgimento do Teatro online não resultará na extinção do presencial, assim como a criação dos streamings não extinguiu o cinema e a TV. O Teatro presencial continua sendo tão necessário e potente quanto antes, talvez mais ainda agora. Existe uma vontade dos artistas em manter as tradições e resguardar a essência do Teatro tradicional, mas isso muitas vezes pode resultar no medo da inovação dos novos formatos que tem surgido, mesmo que eles mantenham a essência da experiência para os artistas que os executam e para o público que os consomem.


A verdade é que o Teatro presencial não vai sumir. E, a partir da recepção do público e dos investimentos que tem aumentado no formato online, o e-Teatro também não. As duas vertentes tem espaço e proporcionam experiências únicas para os espectadores. Aos artistas que não são fãs do formato online, a solução é aguardar o fim da pandemia e retornar ao clássico Teatro presencial. Não há nada de errado em ter preferência pelo tradicional. Mas não esperem que o e-Teatro desapareça, e não diminuam aqueles que pretendem continuar explorando o mundo digital mesmo depois da reabertura dos teatros. Existem possibilidades de crescimento para todos, e existe público para ambos. Afinal, é a opinião e a presença do público que importa. Sem eles, para quem é a nossa arte?


E aí, o que você acha? Concorda que o e-Teatro veio pra ficar? Sente falta do Teatro presencial? Conta pra gente!


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