Hamilton Conta o Passado Pela Lente do Futuro

Em maio de 2009, Lin-Manuel Miranda foi convidado à Casa Branca para apresentar um número de seu musical “In the Heights”, criado e protagonizado por ele. Ao invés disso, ele apresentou a primeira versão da música inicial de seu futuro projeto: um musical hip-hop baseado na vida do pai-fundador dos Estados Unidos, Alexander Hamilton. Os convidados do evento riram da ideia absurda naquela época. É possível ver no vídeo, atualmente hospedado no YouTube, que todos parecem intrigados mas incrédulos pelo conceito de contar a vida de uma figura histórica desta forma. Porém hoje, após anos de apresentações esgotadas, recorde de indicações ao Oscar e até um Grammy, é possível dizer que Miranda provou seu talento e a potência de sua ideia com o musical “Hamilton”.


Inteiramente musicado, sem falas, a história reconta a vida de Alexander Hamilton, mais conhecido por ser o primeiro Secretário do Tesouro dos EUA e um dos principais criadores do sistema financeiro do país. Através de números divertidos e emocionantes, acompanhamos a ascensão de Hamilton, seus escândalos pessoais e os eventos que eventualmente resultariam em sua morte.


O musical é baseado no livro biográfico “Alexander Hamilton” escrito por Ron Chernow mas sofre algumas alterações da história real por escolha artística de Miranda. O elenco, tanto em sua versão original quanto no de suas seguintes produções, é inteiramente composto por pessoas de diferentes etnias para representar a diversidade que existe hoje nos Estados Unidos, mesmo que a maior parte das figuras históricas representadas fossem pessoas brancas. A única pessoa que segue sua representação mais “realista” é o personagem do Rei George III, escolha consciente feita por Miranda. Segundo ele, a ideia é apresentar a América de antes contada pela América de hoje.


Os figurinos possuem referências aos trajes da época mas possuem toques de modernização, além de se adaptarem às necessidades dos atores em cena. As coreografias de dança são em grande parte executadas pelos membros do ensemble – atores que não possuem solos ou personagens definidos, quase como um coro. Porém a coreografia de cena é minuciosa. Cada movimento de cenário e de palco é sincronizado com as ações dos atores. A orquestra e o liricismo de Miranda são os grandes destaques da produção. A composição da trilha foi feita pelo diretor musical Alex Lacamoire, que acompanhou o projeto desde seu início e compôs o musical completo com Miranda, que cuidou das letras. Misturando referências ao hip-hop, R&B, soul e os tradicionais showtunes, o musical usa de sua liberdade criativa mas traz até mesmo frases diretamente ditas ou escritas em documentos por algumas de suas figuras reais.


O musical é extremamente cativante. As nuances de cada personagem são exploradas com maestria pelas músicas e pelo elenco. Não é à toa que a produção quebrou recorde de indicações ao Tony Awards: 16 nominações. Destas, ganharam 11. Além disso, conquistaram o Grammy de Melhor Álbum de Teatro Musical e um Prêmio Pulitzer de Drama. A recepção do público foi igualmente estrondosa, e os ingressos para o show se esgotaram por anos. Ainda hoje, mesmo seis anos após sua estreia, é extremamente difícil conseguir ingressos para o musical pois as apresentações dos próximos anos já estão esgotadas.


A gravação do musical e a eventual estreia como filme no Disney+ causaram algumas controvérsias. Muitos acreditam que a experiência ao vivo é muito diferente da no streaming. Além disso, existe uma longa discussão no mundo do teatro musical onde um lado argumenta que a produção de gravações profissionais diminui a vontade do público de presenciar o espetáculo ao vivo, assim diminuindo o faturamento da obra, e o outro lado argumenta que o alcance das gravações na verdade incentiva o público a querer comprar ingressos e assistir ao vivo, além de democratizar o acesso à quem não pode pagar ou tem limitações geográficas. No caso de Hamilton, o filme seria lançado de qualquer forma. Sua estreia foi simplesmente adiantada para 2020 por conta da pandemia do COVID-19.


O filme foi dirigido por Thomas Kail e conta com um pensamento direcionado ao audiovisual. A produção conta com vários ângulos e movimentações de câmera, uma pausa de intermissão como geralmente acontece na apresentação ao vivo e uma finalização criativa com os créditos. Foram gravadas apresentações com e sem público para que fosse possível usar câmeras no palco e editar os momentos onde a participação do público era necessária e onde o silêncio funcionava melhor. Ao contrário do que se esperava, o filme foi tratado como um projeto individual, e não simplesmente gravado de forma simples, sem muito pensamento na experiência de assistir em casa.


Hamilton” por si só é uma experiência única. A história proporciona risadas e lágrimas, traz músicas viciantes e inspira com o talento de seu elenco. O filme do musical pelo streaming transmite uma preocupação com o espectador e nos permite experienciar a obra de forma autêntica. “Hamilton” foi um fenômeno cultural e continua sendo por uma razão. Ele representa o futuro ao recontar o passado.


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