"Meus Cabelos de Baobá": a Existência Pela Ancestralidade

“E eu, desde pequena, só queria isso. Poder existir.”


Um pedido tão simples. Tão honesto. Mas que se torna complexo quando se depara com os obstáculos impostos por aqueles que te julgam diferente, menor. Como escapar das limitações impostas pelo mundo externo? Como entender-se indivíduo em meio a memórias doloridas? Para Dandaluanda, o caminho se abre ao investigar sua ancestralidade e usá-la de alimento para se transformar no futuro.


Meus Cabelos de Baobá” é um espetáculo concebido pela atriz e bailarina Fernanda Dias em sua viagem ao Senegal. A história é inspirada nas mitologias africanas e se desenvolve em torno de Dandaluanda, que relembra momentos doloridos e marcantes de sua infância e se põe em um diálogo fantasioso com um Baobá, árvore nativa da África. Através de sua relação com a árvore e da exploração de sua ancestralidade, Dandaluanda passa a valorizar sua identidade negra e se torna rainha.


A peça apresenta uma estética que mescla referências africanas e brasileiras, desde o figurino à encenação. Dandaluanda utiliza em cena um traje base mas que se modifica conforme visitamos diferentes memórias. O cabelo da personagem, constantemente comparado à forma do Baobá, se torna quase que um novo personagem. Por ele, a história decorre, se transforma. O elemento musical é parte intrínseca do espetáculo, a trilha é tocada e cantada ao vivo e tem papel essencial na ambientação da peça. A iluminação, o cenário e os objetos de cena, todos os elementos conversam com a dramaturgia e fomentam a encenação, tornando o espetáculo ainda mais encantador.


Acompanhamos Dandaluanda em seu caminho de recordações, e é muito difícil não se emocionar com os relatos, mesmo que suas feridas não sejam iguais às dela. A obra examina de forma pessoal e crua as situações que a personagem viveu e seus sentimentos em relação à elas, refletindo a experiência vivida não só pela protagonista, mas também por muitas outras mulheres negras. O texto põe em pauta, de forma poética e fantástica, o universo feminino negro, e mostra o poder do conhecimento de seu passado e a influência que ele pode ter em seu futuro. A ideia é encontrar modos de “amenizar as feridas” e entender que elas nem sempre cicatrizam por completo. Entender como existir. A história de Dandaluanda não se acaba e nem se inicia nela: ela tem seus ancestrais e seus descendentes, todos carregando consigo as vozes dos que vieram antes deles e a esperança de poderem ajudar os que virão depois. Através de outras vozes, ela aprende a escutar a sua própria.


É difícil escrever algo aqui que faça jus a um espetáculo tão íntimo e potente quanto esse. O impacto da mensagem é mais eficaz pela experiência de assisti-lo. Então espero ter conseguido causar o mínimo de interesse naqueles que ainda não tiveram o prazer de assistir a peça.


Meus Cabelos de Baobá” está no Teatro WeDo! até o dia 17 de setembro, todas as sextas a partir das 18h. Ingressos disponíveis pela nossa bilheteria virtual e pela Sympla.

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