O Papel da Internet na Democratização das Artes Cênicas

O Teatro é conhecido e celebrado por sua capacidade em ultrapassar fronteiras, apresentar perspectivas e desafiar o status quo. Os artistas possuem a criatividade e a força necessária para se comunicar com o público de maneira a evidenciar novas formas de pensamento. A inovação é parte da essência do teatro. Mas o que isso significa para o futuro da criação teatral? Como isso se manifesta na era digital? E que papel a internet cumpre nos próximos passos na ampliação do acesso à Arte?


Entre 2017 e 2018, a JLeiva Cultura conduziu a pesquisa Cultura nas Capitais, abrangendo 12 capitais brasileiras – São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília, Fortaleza, Belo Horizonte, Manaus, Curitiba, Recife, Porto Alegre, Belém e São Luís –, sobre os hábitos e interesses de consumo de bens culturais no país. Observando os levantamentos feitos pelo estudo, é possível apontar que a Internet tem apresentado um papel cada vez mais importante no impulsionamento do acesso à cultura, principalmente se tratando da música e do audiovisual, áreas que rapidamente encontraram terreno fértil para projeção de seus projetos e artistas com o avanço do streaming.


Em 2020, a partir das inesperadas restrições e mudanças que ocorreram no Brasil e no mundo após a pandemia causada pela COVID-19, todas as áreas passaram por processos de transformação. O uso da internet nessas adaptações foi essencial e resultou em inovações que possivelmente não teriam sido exploradas anteriormente, ou seriam colocadas em prática somente em um futuro distante. As Artes Cênicas não foram exceção. Os artistas como um todo foram colocados em posições desconhecidas e obrigados a criar novas formas de se relacionar com o público. No cenário teatral, vimos o começo de uma movimentação na criação ou reprodução de conteúdo para o mundo digital e, apesar da relutância inicial, atualmente podemos observar muitos artistas que migraram para as plataformas digitais à procura de um novo espaço para produzir cultura. Isso foi possível também pois o público demonstrou interesse nestas novas formas de consumir arte e se tornou presente nas conversas envolvendo a temática da arte na internet.


Existe há muito tempo uma discussão sobre até que ponto a internet permite a distribuição de conteúdo cultural. Até onde é possível observar a “democratização da arte” quando se usa uma ferramenta que ainda não é de fácil acesso para as partes mais desfavorecidas da população? Segundo pesquisas realizadas pelo IBGE, mais de 21% da população brasileira ainda não possuía acesso à internet em 2019, em paralelo a dados de 2015 que revelaram não chegar a 25% o número de cidades brasileiras que contam com um Teatro em seus territórios. Ao mesmo tempo, o que deve-se dizer sobre a relutância em utilizar mais de um espaço de acesso ao público? É incontestável a potência do mundo digital em facilitar o acesso a eventos, espetáculos, mídias e espaços de debate. E se, segundo o mesmo estudo do IBGE, mais de 78% da população brasileira tem acesso à internet, por que não utilizá-la como instrumento para aumentar o alcance, ao mesmo tempo em que encontramos outras formas de nos comunicarmos com pessoas sem a possível barreira do acesso às plataformas digitais?


Afinal, um processo não exclui o outro. Um estudo realizado pelo SESC e pela Fundação Perseu Abramo entre 2013 e 2014, revelou que 75% dos brasileiros nunca foram ao Teatro, e 61% nunca assistiram a uma peça de teatro. A pesquisa também revelou que o principal motivo para isso foi o fato de não haver essas atividades em algumas das cidades dos entrevistados. Porém, na pesquisa da JLeiva mencionada anteriormente, mais da metade das pessoas que participaram declararam ter muito interesse por espetáculos teatrais. Com isso, é possível perceber o desejo do público em experienciar o Teatro e a dificuldade de acesso que já existe mesmo fora da esfera digital.


A solução para a discussão pode possivelmente ser encontrada no equilíbrio. Como artistas, temos a possibilidade de oferecer caminhos diferentes e criativos. Devemos encontrar formas de criar diferentes canais de comunicação com o público, presencialmente e virtualmente, enquanto lutamos pela democratização da internet em áreas vulneráveis. Enquanto isso, não podemos desperdiçar o potencial que existe no mundo digital. O público anseia por inovação e acessibilidade, e temos formas de criar pontes entre as obras e os espectadores sem esquecer que nossas lutas continuam e que ainda existe um longo caminho a ser feito. Devemos ocupar quantos espaços forem possíveis para atingirmos o máximo de pessoas. O acesso à arte e cultura é um direito de todos, independente de como é viabilizado.


E você? Qual sua opinião sobre a Arte na internet e sobre o Teatro Online?

Conta pra gente!


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